sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O problema era o sofá


Naquela noite de setembro lá estava ela.

Sentou-se, aconchegou-se e, como uma espectadora assídua, esperava pelo barulho do vento, trazido pelo teor das conversas que, naquele último período, se tornariam cada vez mais frequentes.
Ouvia, ouvia e o estrondo maior vinha de alguém cuja voz era estupidamente irritante. Como se mil Sirenes (ou clarices) se juntassem e, de repente, explodissem ressonando como eco.

Sempre tive a sensação de chacoalhar balões.

As conversas deste tempo eram horríveis; com exceção daquelas em que não estava presente, essas eram admiráveis. Acordava exausta como que se, por séculos, alguém tivesse pisado ininterruptamente na minha cabeça. Não era o vinho.

O problema era o sofá.

Não cabia muita gente e gente pede espaço. Nem todo mundo tem espaço para dar; a maioria não pensa em dividir e não há mal nisso. Talvez fosse o livro de capa amarela que reluzia por entre o braço daquele sofá. História horrível, interminável.

É tempo de dançar.

No meu gramofone é a vida que dança. Não entendo muito bem questões de física, ou seriam de lógica? Chacoalham as pernas! Olha, é um sapato diferente! Faz barulho. Não faz.

Não beijo.

Devia ser culpa das circunstâncias, das situações? Quem sabe da cafeteira? Não. Hoje não tenho tempo; quem sabe ano que vem? Mês que vem? Tanto faz. Nunca mais. Busy (for me).

E esse cigarro?

Apaga.

E esse copo?

Esvazia.

E a sua vida?

Revigora.

Porto, 06.02.2016


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